O TRAJO NO ALGARVE
Enquadramento geográfico

É ponto assente que, desde o século XVII, a cultura da Europa Ocidental é basicamente a mesma, havendo, portanto, pouca diferenciação nas roupas das várias nações, pelo menos no que toca às classes superiores.

É a partir do século XIX em termos de um interesse na maneira de vestir e nas suas sucessivas mudanças de estilos, que o trajo se transformou numa preocupação predominantemente feminina.

O Algarve, isolado do resto do país por um denso conjunto montanhoso, a que se segue o Alentejo escassamente povoado, desenvolve um activo comércio marítimo, que mantém uma elite de negociantes e proprietários, actualizada em relação à Europa dos negócios, das ideias e das modas.

Igualmente, uma presença apreciável de estrangeiros, aqui radicada, facilita a ligação com o exterior.

A mulher citadina, especialmente a mais endinheirada, desde o nício do século XIX, acompanha a par e passo as modas europeias no estilo, na cor e na qualidade dos tecidos, que são quase sempre importados.

Logo no primeiro quartel do século, surge uma nova maneira de vestir, vinda de França, que as Invasões Francesas ajudaram a difundir: O Trajo Império.

Depois vem o período romântico, cujas reminiscências se prolongaram até finais do século, influenciando profundamente o vestir da burguesia.

Por arrastamento, as populações do interior procuravam imitar, no seu trajo domingueiro, as meninas ricas da cidade.

Assim, como as condições económicas obrigavam muitas vezes ao uso de matriais mais grosseiros de fabrico local, a tecedeira recorria a uma prodigiosa imaginação para imitar padrões de origem estrangeira. A costureira inventava artifícios para para poupar tecido na confecção ou para prolongar o período de vida útil da peça de vestuário. Entretanto, o vestuário masculino, passado o brilhante primeiro quarto de século, caminhou no sentido da sobriedade.

O trajo do povo, porém, reflecte nas mulheres um misto de dradição genuína, caldeado com pormenores roubados às modas que iam passando.

Curiosamente, estes pequenos pormenores, caídos em graça, são integrados e fixam-se, contribuindo para a evolução. Por outro lado, indumentárias de origens ancestrais, conviveram imperturbáveis com a moda, e quase chegaram intocáveis aos nossos dias, como são os casos dos gabões e dos biocos.

Emanuel Andrade C. Sancho


Casal citadino em trajo de passeio.
Fins do século XX.


Casal de lavradores abastados em trajo de passeio.
Princípios do século XX


Casal de marítimos do sotavento algarvio.
Princípios do século XX


Casal serrenho usando o tradicional gabão de soreano. Princípios do século XX